
No último dia 25, moradores de Stella Maris – onde o padre Francisco foi achado morto – colocaram placas com mensagens que ironizavam o alto índice de crimes na região
Os gritos de socorro do padre Francisco Carlos de Souza, 50 anos, destoaram da voz calma que passava tranquilidade aos fiéis. Desesperado, ele tentava evitar o crime brutal que resultaria na morte, no início da tarde de domingo.
Ele corria de dois jovens que o perseguiam na Alameda Praia do Flamengo, em Stella Maris. Mas o pedido de socorro foi inútil. Francisco foi alcançado pelos suspeitos e golpeado nas costas.
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Padres de diversas paróquias da cidade carregam o caixão do capelão Francisco, que tentou escapar da morte e gritou por socorro, mas foi alcançado e golpeado com arma artesanal |
Já sem forças, ele se tornou vítima fácil para os dois suspeitos, que o levaram para uma parte ainda mais deserta da rua. Lá, usaram o chuço (arma artesanal) que levavam para dar mais 17 golpes no rosto, pescoço e tronco do capelão do Santuário Mãe Rainha, no Stiep.
É um sentimento de surpresa. O Senhor tem a última palavra da vida e da morte
Dom Murilo Krieger, arcebispo de Salvador
Os suspeitos fugiram no carro do padre, um Fox prata (OUJ-5586). Depois, o silêncio tomou conta da rua e chegou até o santuário, que estava cheio de fiéis que aguardavam pela famosa homilia do padre Francisco, como acontecia todos as tardes de domingo.
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Familiares de padre Francisco se consolam |
O corpo do padre foi encontrado pouco depois do crime, de bermua e camiseta, mas sem documentos. No bolso, apenas um celular. O chuço usado pelos assassinos estava ao lado do corpo, que foi levado para o Instituto Médico- Legal (IML).
Ele só foi identificado por pessoas da paróquia na segunda-feira à noite.
Antes do crime
No domingo do crime, padre Francisco fez uma celebração, às 11h, no santuário e voltou para casa, no Condomínio Costa do Atlântico, na Rua Dr. Augusto Lopes Pontes, no Stiep. Segundo relatos de testemunhas, ele teria saído de casa no início da tarde.
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Padre é homenageado em cartaz no sepultamento |
O santuário fica a cerca de 10 minutos da casa dele. “Talvez ele tenha saído para almoçar ou fazer outra coisa. Não sabemos”, disse a freira Miriam Fuck, que trabalhava com ele.
É fácil ser abandonado pelas pessoas, mas o abandono de Deus não existe
Padre Francisco, em sua última homilia
De acordo com o delegado titular da 1ª Delegacia de Homicídios (Atlântico), Marcelo Sansão, a hipótese inicial era de latrocínio (roubo seguido de morte), porque o carro da vítima foi levado. Mas, por conta das circunstâncias do crime, ele já acredita que a hipótese de homicídio é a mais provável. “Pelo local e o tipo de arma usada, não parece ter sido um latrocínio”, disse.
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“Chunço” usado para matar o padre |
Segundo o delegado, uma das sete testemunhas já ouvidas relatou que o padre Francisco, que também era psicólogo e atendia em consultório no Edifício Elite Comercial, no Stiep, estava se sentindo inseguro nos últimos dias, porque havia sido furtado e teria registrado queixa da ocorrência na delegacia.
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Cansados da criminalidade no bairro moradores de Stella Maris instalaram placas em protesto |
“Nós ainda não encontramos esse registro recente. As únicas ocorrências que encontramos são de 2006 e 2008”, disse Sansão, que não descarta, inclusive, que o crime possa ter relação com os pacientes que o padre atendia.
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Celebrações do padre Francisco costumavam lotar e as mensagens deixadas eram exemplo para seguidores |
O local onde o corpo do padre foi encontrado fica atrás do Hotel Catussaba e é próximo ao Centro de Formação de Líderes da Igreja Católica, mas, de acordo com a Arquidiocese, nenhuma atividade estava sendo realizada lá no dia do crime. A rua é a mesma onde, no último dia 25, moradores instalaram placas alertando para a insegurança (veja acima).
Sepultamento
A multidão de fiéis, que costumavam acompanhar as homilias de padre Francisco no santuário da Mãe Rainha, lotou, ontem, a capela do cemitério Campo Santo para prestar homenagem e se despedir do capelão, classificado como uma pessoa tranquila, dedicada ao sacerdócio e muito caridosa.
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Padre Francisco foi descrito como tranquilo e caridoso |
A quantidade de fiéis que fizeram questão de dar adeus ao padre provocou um enorme engarrafamento na região, com reflexos até o Rio Vermelho e o Campo Grande. Dentro do Campo Santo, uma fila chegou da capela até o portão do cemitério.
Um padre citou que ele estava com medo por conta de uma queixa de furto
Marcelo Sansão, delegado à frente do caso
Na capela, padres de diversas paróquias acompanharam a missa realizada pelo arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, dom Murilo Krieger. “É um sentimento de surpresa. Uma perda que sufoca o coração, mas que também dá esperança: o Senhor tem a última palavra da vida e da morte”, afirmou.
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Fiéis e religiosos lotam a capela do cemitério Campo Santo para se despedir do capelão do santuário Mãe Rainha, no Stiep (Foto: Almiro Lopes) |
Dois irmãos do padre Francisco também foram à celebração. O mais velho, Geraldo Augusto de Souza, veio de Minas Gerais depois de saber da morte por dom Murilo. Os noivos Érica Brasil e Diego Leite estavam especialmente abalados. Padre Francisco celebraria o casamento dos dois, no próximo dia 25. “Era motivo de orgulho pra nós”, disse ela, chorando.
Fonte: Correio












