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“Pacote” de incentivo à amamentação e doação de leite humano chega à Câmara, e hospitais buscam fortalecimento de bancos em Salvador

O incentivo à amamentação e a promoção da doação de leite humano são dois dos temas discutidos em projetos recém-protocolados na Câmara Municipal de Salvador (CMS). As temáticas foram incluídas em quatro textos apresentados pela vereadora Isabela Sousa (Cidadania). Entre as principais proposições, está um projeto de indicação para a criação de um banco de leite humano a ser construído na Maternidade Municipal de Salvador.

Foram quatro projetos sobre o tema. Entre eles, o Projeto de Indicação (PIN) n° 257/2026, no qual a vereadora indica ao prefeito de Salvador e à Secretaria Municipal da Saúde (SMS) a criação, implantação e funcionamento de um Banco de Leite Humano na Maternidade Municipal de Salvador, evidencia que o equipamento pode fortalecer as ações de atenção integral à saúde materno-infantil, o suporte técnico às mães lactantes e a assistência nutricional na capital.

Os outros textos, como o Projeto de Indicação (PIN) n° 289/2026, indicam ao Executivo Municipal a criação e implantação de Salas de Apoio à Amamentação nas escolas e creches da rede municipal de ensino de Salvador. O texto 288/2026, também como PIN, dá a mesma sugestão ao governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, mas no âmbito das universidades e instituições públicas estaduais.

Chama a atenção, no entanto, o Projeto de Lei (PL) 171/2026, que institui diretrizes de combate à desinformação e às fake news relacionadas à doação de leite materno no âmbito do Município de Salvador. Na justificativa do texto, a vereadora reforça a necessidade de “combater conteúdos falsos ou enganosos que possam comprometer a confiança da população nos Bancos de Leite Humano e nos serviços de apoio ao aleitamento materno”, assim como garantir que sejam realizadas ações educativas sobre o tema.

Os projetos foram protocolados pouco antes de a legisladora dar à luz a filha, Maria Ísis. Ao Bahia Notícias, a vereadora contou que a maternidade foi um importante incentivo para levar as pautas ao Legislativo Municipal.

“Sem dúvida, a maternidade trouxe um olhar ainda mais sensível para essa pauta. Quando a gente vivencia a amamentação na prática, entende a importância do leite materno para o desenvolvimento dos bebês e também os desafios que muitas mães enfrentam nesse processo. Mas esse projeto vai além da minha experiência pessoal. Ele nasce da preocupação com a saúde materno-infantil e da necessidade de fortalecer uma cultura de informação correta, acolhimento e solidariedade”, explica.

Segundo a vereadora, o projeto de indicação do banco municipal de leite humano é uma forma de ampliar o debate sobre a amamentação e a saúde neonatal. “Ao mesmo tempo, apresentei uma indicação para a criação de um Banco de Leite Humano na Maternidade Municipal de Salvador, porque acredito que precisamos ampliar tanto o acesso ao leite humano quanto o apoio às mães que desejam doar”, diz Isabela.

Espacialmente no que tange ao PL 171/2026, de combate à desinformação relacionada à doação de leite materno, a proposta prevê ações permanentes de conscientização e educação, utilizando os canais institucionais da Prefeitura, unidades de saúde, maternidades e campanhas públicas para levar informação de qualidade à população.

A legisladora explica que o projeto atua de forma complementar à indicação do banco de doação. “Essa iniciativa dialoga diretamente com a proposta que apresentei para a implantação do Banco de Leite Municipal. Não basta apenas criar a estrutura física; é preciso também fortalecer a cultura da doação e garantir que as mães recebam apoio, orientação e segurança durante todo esse processo”, ressalta.

O objetivo é garantir que as mães tenham acesso a orientações baseadas em evidências científicas, desmistificando boatos e incentivando a doação de leite humano. “Infelizmente, ainda circulam muitas informações falsas dizendo que a doação faz mal à mãe, que reduz o leite do próprio bebê ou que o processo não é seguro. Nada disso é verdade. Essas fake news acabam gerando medo e insegurança justamente entre mulheres que poderiam ajudar a salvar vidas”, expõe Isabela.

A vereadora afirma ainda que grande parte das dificuldades de estoque nos bancos estaduais de leite pode ser atribuída às fake news. “O resultado é uma redução no número de doadoras e, consequentemente, nos estoques disponíveis para atender recém-nascidos prematuros ou internados em UTIs neonatais”, destaca.

Como parte de uma iniciativa própria de garantir que a amamentação e a doação de leite humano sejam debatidas com seriedade na Câmara e na sociedade civil, Isabela conta que realizou o próprio registro no Banco de Leite do Hospital Roberto Santos.

“Eu, inclusive, já iniciei meu processo de doação de leite humano. É um processo muito simples e acolhedor: a equipe vai até a casa da doadora, orienta todo o procedimento e faz a coleta do leite. Na semana passada, recebi a primeira visita e agora vou começar minhas doações. Como mãe, sei da importância desse gesto e fico feliz em poder ajudar outros bebês que precisam desse cuidado tão essencial”, garante.

Atualmente a rede de doação de leite humano na Bahia inclui quatro bancos e um posto de coleta em Salvador, sendo eles: o Hospital Geral Roberto Santos, a Maternidade Climério de Oliveira, o Instituto de Perinatologia da Bahia (Iperba), a Maternidade de Referência Professor José Maria de Magalhães Netto e na Maternidade Tsylla Balbino (posto de coleta). Além de outros quatro no interior do estado, sendo eles: o Hospital Estadual da Criança e o Hospital Municipal Inácia Pinto dos Santos, em Feira de Santana; o Hospital Manoel Novaes, em Itabuna; e o Hospital Municipal Esaú Matos, em Vitória da Conquista.

Para dar mais detalhes processuais sobre a doação, o Bahia Notícias conversou com as especialistas Ana Paz, pediatra e neonatologista responsável pelo Banco de Leite Humano do Instituto de Perinatologia da Bahia (Iperba); e a enfermeira Ana Carolina Meireles, coordenadora do Banco de Leite Humano do Hospital Geral Roberto Santos (HGRS).

DA MAMA AO LEITO
O primeiro passo para avançar no debate sobre a doação de leite humano é a garantia da transparência dos processos, por mais simples que pareçam. Ao BN, a pediatra Ana Paz destaca que todo o processo, da ordenha até o atendimento dos pequenos pacientes dos hospitais, é permeado por etapas de avaliação, segurança e acolhimento de doadoras e pacientes.

De cara, a médica, que é presidente da Sociedade Baiana de Pediatria, reforça que o procedimento de doação depende do voluntariado das mães. “Uma mulher saudável, que tem um excedente de leite e que esteja amamentando o filho pode se candidatar a ser doadora. Ela pode entrar em contato com o Banco de Leite que existe na cidade e se cadastrar”, afirma.

Após se voluntariar, a pessoa apta a doar deve “responder a um questionário padrão sobre as suas condições sociais”. “É um questionário que fala sobre condições de armazenamento do leite, como foi feito o pré-natal, saúde prévia, se ela fuma, se usa algum tipo de droga ou de medicamento e, depois disso, ela precisa enviar alguns exames que fez durante o pré-natal”, explica a médica.

As doadoras precisam apresentar exames de hemograma, sífilis, HIV, HTLV e hepatite B, realizados durante o pré-natal. No perfil de doação, é indicado que a pessoa doadora deve: ser saudável; apresentar exames pré ou pós-natal compatíveis com a doação de leite ordenhado; não fumar mais que 10 cigarros por dia; não usar medicamentos incompatíveis com a amamentação; não consumir álcool ou drogas ilícitas; e realizar os exames citados.

A responsável pelo banco de leite do Iperba destaca que, “caso ela não tenha esses exames, pode fazê-los aqui na unidade”. “A gente se predispõe a fazer esses exames e, uma vez com esse material na mão, ela pode passar a ser doadora”, afirma.

“Se estiver tudo ok, ela recebe os frascos estéreis aqui no Banco de Leite, ou em qualquer banco de leite em que pretenda doar. São frascos de vidro com tampa plástica, geralmente de no máximo 500 ml, para facilitar o armazenamento dentro do congelador ou do freezer. Por questão de segurança, esses frascos são enviados pela própria unidade”, explica a médica.

A segurança é uma das prioridades dos bancos de leite, especialmente considerando que o “público final” da doação é composto por bebês frágeis, com histórico de prematuridade, baixo peso e baixa imunidade. Ana Paz, que também atua como Consultora Internacional de Aleitamento Materno, narra o processo a ser seguido por cada doadora.


Foto: Divulgação / Agência Pará

“Ela deve fazer a ordenha dentro deste frasco e não deve permitir que ele seja cheio até a boca. [É necessário] Deixar um espaço de mais ou menos um ou dois dedos, sem encher completamente, para que, quando congelar, o frasco não estoure. Ela pode fazer a primeira ordenha, anotar a data e o horário em que tirou aquele leite, que será a validade daquele frasco”, explica.

Segundo ela, o nível de estoque da rede de doação de leite humano já opera, historicamente, em déficit, já que, na maioria das vezes, a oferta não supre a demanda. “A gente está sempre precisando de mais. Temos que fazer sempre um mapeamento de quanto vamos precisar por dia, porque não podemos usar todo o leite em um dia e no outro deixar faltar”, explica.

Ana Paz destaca que as doações são necessárias continuamente, porque nem todo o leite que entra no banco é utilizado. Ainda na esfera de processos de segurança, “o leite passa por vários testes de triagem; desde a embalagem em que ele vem, precisa chegar de uma forma adequada”. “Às vezes vem com alguma sujidade e é descartado. Então, se não passar em todos os testes de triagem, não poderá ser utilizado”, diz a médica.

Ainda como forma de incentivo à doação, a médica explica que os bancos de leite contam com veículos especiais e o apoio do Corpo de Bombeiros, por meio do Projeto Bombeiro Amigo do Peito, para a coleta dos frascos nos domicílios das pacientes.


Projeto Bombeiro Amigo do Peito, desenvolvido pelo Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBM-BA). Foto: Marcia Santana

Para a pediatra, todo esse trabalho vale a pena por “saber que a gente pode estar oferecendo o melhor alimento que existe para um bebê cuja mãe, naquele momento, está impedida totalmente ou parcialmente”, destaca. “Então, é um gesto de solidariedade, é um gesto de amor ver alguém doando, repartindo um pouco do seu leite para alimentar o bebezinho naquele momento, o que vai fazer uma diferença muito grande na vida dele”, completa.

CORRENTE DE AMOR
Quem acompanha de perto essa rotina de planejamento e acolhimento de pacientes e doadoras à frente do banco de leite é a enfermeira Ana Carolina Meireles, coordenadora do Banco de Leite Humano do Hospital Geral Roberto Santos (HGRS), um dos hospitais de maior rotatividade da capital baiana. Em entrevista ao Bahia Notícias, a profissional de saúde destaca a importância da doação de leite humano frente aos mitos que afastam diversas doadoras em potencial.

“O nosso escopo são mães que estejam amamentando ou que estejam retirando para os seus próprios bebês e que tenham excedente de leite. Aquele bebê que está dando conta do leite e não está sobrando, a gente não quer tirar dele para que ela doe, entendeu? Ela não pode dar a fórmula para o bebê dela e doar leite para mim. Ela precisa estar alimentando o filho com o seu leite e ter sobra”, explica a enfermeira.


Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

A especialista em Neonatologia conta que muitas mães não compreendem o que configura esse “excedente” e temem que, ao doar o que sobra, a amamentação seja prejudicada. Ana Carolina explica que o processo é justamente o contrário.

“Isso é fisiológico: quanto mais a gente retira leite do peito, mais o peito produz. É a lei da oferta e da demanda”, brinca a enfermeira. “Da mesma forma, quando estamos no início da amamentação, a mãe tem muita dúvida se o leite é pouco. ‘Ah, meu leite é fraco, meu leite é pouco’, mas quanto mais colocar o bebê para mamar, mais se produz leite. É a mesma coisa: quanto mais eu retiro, mais eu produzo. Então, não vai faltar para o bebê dela”, garante Ana Carolina.

A responsável pelo banco explica ainda que o processo de doação é totalmente voluntário e deve respeitar a necessidade das doadoras e de seus próprios filhos. “Quando a gente vê que o bebê está se adequando à quantidade, ou que por conta de tempo não está dando para tirar o excedente, a gente faz o acompanhamento com as doadoras e permite que elas deem uma pausa ou deixem a doação”, explica.

Ao lidar com um “insumo” de oferta reduzida, Ana comenta que, em alguns momentos, a gestão dos bancos de leite costuma ficar mais prejudicada. No HGRS, ela cita que meses como junho, conhecido pelos festejos juninos, tradicionalmente provocam maior fragilidade nos estoques.

“A gente tem uma queda de doação nos períodos festivos. Agora, por exemplo, é um período em que entramos em baixa, porque tem muita viagem, férias escolares e recessos. No final do ano, conseguimos ver um impacto ainda maior, justamente por ser um período longo de festas. Então, temos uma redução”, narra.

Segundo ela, a solução é garantir as doações com antecedência, especialmente por meio de campanhas. “A gente tem dois momentos cruciais no ano em que fazemos mais campanhas: maio, o mês da doação, que passou recentemente; e agosto, o mês de incentivo ao aleitamento materno. Então, tentamos ao máximo, nessas campanhas de maio e agosto, criar um estoque para que não passemos sufoco”, explica Carolina.


Foto: Divulgação / HGRS / Sesab

Ainda sobre o banco de leite humano do Hospital Geral Roberto Santos, Ana Meireles relata que “cada gota importa” para garantir que o maior número de pequenos pacientes possa ser atendido. “O estoque que a gente tem atende todos os bebês que eu tenho no Roberto Santos? Não. Eu tenho cerca de 50 bebês nas unidades neonatais que estão internados. Para atender todos os 50, eu deveria ter mais ou menos entre 6 e 8 litros de leite por dia. Hoje, eu distribuo 3,5 litros”, relata.

Segundo a coordenadora, a estratégia é priorizar os pacientes mais frágeis. “Todos esses 50 precisariam de leite de banco? Não, mas seria bom que eu tivesse uma retaguarda, porque há mães que estão produzindo, mas o volume demandado nas unidades às vezes aumenta. Mesmo com 3,5 litros, eu não consigo atender a todos os bebês que porventura precisarem. Consigo atender os menores e, a partir daí, tenho uma escala de prioridade. Sempre os prematuros e os que têm baixo peso ou risco vêm primeiro, até porque os volumes que eles mamam são menores”, afirma.

Em um cenário tão complexo quanto uma Unidade de Tratamento Intensivo Neonatal, Carolina explica que assistir ao impacto da doação de perto é um sentimento único.

“É uma corrente de amor, como costumamos falar. A doação faz com que esse seja o nosso sentimento. Quando trabalhamos nessa corrente, até as dificuldades se transformam em obstáculos pequenos. Ver o resultado lá na ponta, daquele bebê que tomou o leite, passou pela unidade, foi para casa e a mãe depois volta dizendo: ‘Olha, estou em casa, já estamos bem’ ou ‘Ele já está mamando no meu peito’, receber esse retorno é extremamente gratificante”, conclui a enfermeira.

Bahia Notícias

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